segunda-feira, setembro 26, 2016

Pensamentos de uma pseudo-corredora

De há uns meses para cá, muito em virtude de ter em casa um aspirante a maratonista que me desafia e me inspira, tenho feito algumas provas de corrida.

Quanto mais corro mais me apercebo que a corrida não é só um enorme esforço físico, mas um teste à minha mente e ao meu espírito de sacrifício. Quando estás quase quase quase a desistir, a parte psicológica vai buscar forças para te dar o combustível que o corpo precisa. 

No meu caso, são estas as diversas fases da corrida:

- OS 2KMS INICIAIS: 
Já?! Ena, isto fez-se bem. Já só faltam 8km.

-ENTRE OS 3 E OS 4 KMS
Conseguirei melhorar o meu tempo? A este ritmo acho que vou fazer isto abaixo dos 60 minutos.

- ENTRE OS 4 E OS 5KMS
Ainda? Bolas, ainda nem a meio do caminho vou e já estou a deitar os bofes pela boca.
Calma...
Vê que lindo cenário está à tua volta, estás a correr em plena marginal, está um dia lindo e tu és uma privilegiada por estar aqui. Ouve a música que passa nos fones e esquece o sofrimento. No fim vai valer a pena.

- ENTRE OS 5 E OS 6KMS
Ainda falta metade! 
Não querias reduzir o índice de massa gorda? Não querias perder gordura e celulite? Agora aguenta! Deixa-te de lamúrias. Pensa nesse teu rabo gigante e toca a mexer essas pernas.

-ENTRE OS 6 E OS 7KMS
Onde é que eu me vim meter? Estou de rastos. 
Mas quem é que tu queres enganar? Tu não nasceste para isto, miúda. Desiste! 

- APROXIMAM-SE OS 8 KM
Desistir?! Eu?! Mesmo que eu desistisse, ninguém me vinha cá buscar. Tenho de ser eu a ir até à meta, e eu recuso-me a fazê-lo a andar! 

- A BARREIRA DOS 9KMS
Já só falta 1km. Tás a ver não custa nada. Querias tu ter desistido aos 4km.... 
(Mas onde está o raio da meta que nunca mais a vejo??!)

- A CHEGADA À META

Sprint Final.
Sou a maior, sou poderosa! 
Da próxima vez inscrevo-me numa prova de 15km em vez de 10km.

ou talvez não ... 






segunda-feira, setembro 19, 2016

Ser voluntário não é para todos

Não é fácil ser voluntário! Não basta ter vontade de ajudar alguém.

Porque não? Porque nem todos são seres humanos de olhos tristes e meigos que carecem de conforto, de apoio e de uma oportunidade.

Também os há duros, cansados da vida, refilões e agressivos, com tanta vergonha e revolta que não reconhecem o quanto precisam de nós.

Há quinze dias apanhei um fulano que reclamou que as sandes que distribuíamos estavam estragadas, que os bolos não estavam em condições, e que aquilo que eu estava a distribuir era comida que não se dava a um cão quanto mais a uma pessoa.

Achei estranho, mas pedi desculpa. Disse que desconhecia (pois só faço a entrega), mas que iria pedir à equipa responsável pelas sandes para ter isso em consideração. Respondeu-me que isso não ia mudar nada, e que se era para andar a entregar lanches daqueles mais valia eu ficar em casa.

Fiquei magoada, mas entendi a situação como uma insatisfação pontual, como um desabafo. Transmiti a reclamação no relatório interno para que da próxima vez não se repetisse, e segui o meu caminho.

Nesta última sexta-feira, quando me dirigi ao mesmo homem por volta da meia noite, reparei que estava no mesmo sítio, deitado no mesmo banco de jardim, todo coberto pelo saco cama, nem a cabeça se via. Imaginei-o a dormir. Quando assim é, quando se encontram a dormir, deixamos o saco em silêncio para não os acordar. Foi o que tentei fazer, até pelo avançado da hora. Como entendo que comida não se deixa no chão, tentei pousar o saco junto aos seus pés, em cima do banco de jardim onde dormia. Mandou um salto e sentou-se. Não sei qual dos dois ficou mais assustado.

Começou a disparatar comigo, que não era assim que se fazia, que não é para se deixar o saco assim de qualquer maneira.
-Isso não se faz! Diz-me ele.
- Peço desculpa se o assustei, não era essa a minha intenção. Pensei que estava a dormir e queria apenas deixar-lhe o saco para quando acordasse.
- A mim não me assustas que eu já passei por muito nesta vida. Mas não deixas assim o saco e vais-te embora..

(Mau Maria, queres confusão? Há 15 dias foram as sandes estragadas e que mais valia eu ficar em casa, agora é a maneira como eu deixo o saco?)

- Olhe, quer que deixe o saco ou não? Se não quer eu posso levar de volta...
- Olha para as tuas colegas (ambas em silêncio). Nenhuma delas fala assim! Tu só queres deixar o saco e ir embora. Não é assim que se faz. Olha para as tuas colegas e vê como elas são simpáticas.

Passei o saco à colega (bastante mais condescendente do que eu, confesso) e informei que me ia embora. A ele disse que tinha sido a última vez que lhe levaria comida, pois era a segunda vez que era mal-educado comigo. Disse-lhe textualmente: De mim, você não recebe mais nada!  Bolas, sou uma voluntária, não sou Madre Teresa de Calcutá.

Voltei para a carrinha e por momentos pensei que não valia a pena continuar: o que fazes tu aqui, pá? Fica mas é em casa, no sofá, com a tua família, a ver filmes e séries de enfiada.

Pela primeira vez, em quase dois anos decorridos desde que abracei este projecto com a Comunidade Vida e Paz, apeteceu-me bater com a porta. Fui bombardeada por pensamentos como "não estou para isto", "não volto mais", "não foi para isto que me tornei voluntária".

Mas depois, com mais calma vem a certeza de que não me posso deitar abaixo por uma única pessoa. Não é um homem demasiado amargurado com a vida que me vai fazer abandonar os sorrisos rasgados e os obrigados sinceros dos restantes. Tais sorrisos valem fortunas, sabem-me a imensidão, tornam-me grande e forte. São eles que me motivam a continuar a fazer isto com amor.

Num panorama de centenas de pessoas sem-abrigo que ajudamos quinzenalmente, a sua maioria são-nos efectivamente gratos. É nesses que eu tenho de me focar.

Pode ser que um dia ele aprenda que mesmo não precisando, não temos o direito de maltratar ninguém, quanto mais quando precisamos.

Um grande bem-haja a todos os meus colegas da Volta B!





quarta-feira, agosto 17, 2016

Pergunta-te a ti mesmo! # Boteco das Tertúlias #12

O momento Gustavo Santos no Boteco das Tertúlias!

Este mês decidimos reflectir sobre Objectivos de Vida inspirando-nos neste vídeo de Vishen Lakhiani sobre as três perguntas que devemos fazer a nós próprios.





Quem já chegou aos 30 anos e pensou para si mesmo "mas que raio tenho eu andado a fazer da minha vida?" sabe perfeitamente do que estamos a falar.

Aquela sensação de que o tempo está a passar e que perdemos o foco sobre aquilo que realmente faz sentido na nossa vida, aquilo que realmente importa.

E o mais engraçado é que muitas vezes temos aquilo que consideramos essencial, como o sorriso dos nossos filhos, acordar todos os dias ao lado do amor da nossa vida, termos a profissão que gostamos, e mesmo assim faltar qualquer coisa. Mesmo assim sentir que não estamos... inteiros.

O vídeo convida-nos a parar para reflectir nas seguintes questões:

1- What do you want to experience?
2- How do I want to grow?
3- What do I want to contribute to the planet?

No fundo, a pergunta geral é QUE FOTOGRAFIA AINDA TE FALTA TIRAR?

No meu caso, dei comigo a acreditar que a minha mãe ainda pode ser feliz, a pensar que gostava de puder ajudar a minha sobrinha na sua doença, que gostava de fazer mais para melhorar o negócio de família, a querer dar melhores condições de trabalho aos meus funcionários e melhor serviço aos meus clientes, a apetecer-me correr o mundo em missão de voluntariado, a querer ter mais tempo para ler, a ainda não ter perdido a esperança de aprender a tocar guitarra, a desejar que os meus filhos cresçam fortes e independentes, a querer ficar velhinha ao lado da pessoa que amo, a ter vontade de ter o meu próprio negócio, a querer ter mais tempo para os amigos, a achar que ainda gostava de escrever um livro, etc.

Experimentem o exercício aconselhado no vídeo, acompanhado por dicas do próprio Vishen. São apenas 90 segundos para cada resposta.

Vá lá! Que Selfie ainda te falta tirar na tua vida?



O Boteco das Tertúlias é uma colaboração com os blogues Contador de EstoriasLifes TexturesEspresso and Stroopwafel, e  Anas há Muitas.
Vão lá espreitar o Tema deste mês nos seus blogues.

quinta-feira, julho 21, 2016

Quando a vida tem cenas que parecem tiradas de um filme!

Os meus Teens chegaram ontem de Inglaterra com um montão de histórias para contar.

Ao fim de 1hora no aeroporto à espera que saíssem do avião, posso garantir-vos que a zona das Chegadas do Aeroporto de Lisboa é um dos sítios mais comoventes e emocionantes do mundo.

Entre mulheres que esperam os maridos com tanta ansiedade que não se apercebem dos disparates dos filhos, crianças com desenhos coloridos onde se lê PAI em letras garrafais, amigos de longa data que se abraçam entre beijos e sorrisos, mães que aguardam por filhos que não veem há demasiado tempo, amores que se reencontram... You name it!

A realidade a imitar o cinema,  uma cena tirada de LOVE ACTUALLY!
O reencontro também é Limonada da Vida



sábado, julho 16, 2016

Boteco das Tertúlias #11 - Isto de ser português!

Quando era miúda havia muito a ideia de que tudo o que se fazia lá fora é que era bom. Tudo o que vinha do estrangeiro era muito à frente. Os estrangeiros eram especialistas em muitas coisas, tinham os melhores do mundo nisto e naquilo, eram competitivos e eram sempre eles os campeões.

Nós éramos apenas um Paraíso à beira mar plantado, mas que ninguém queria saber de nós para nada. Nós não contávamos para o Totoloto. Em nada. Ninguém sabia onde ficava Portgal no mapa, éramos para muitos um pedaço de Espanha. E isso sempre me indignou, pois aprendi que no tempo dos Descobrimentos fomos nós quem descobriu África, a Ásia, a América (ok a América foi a mando dos espanhóis, mas vá, tínhamos quota parte na descoberta). Nós fomos donos de metade do mundo, como era possível ninguém saber sequer onde ficava o nosso país?

Lembro-me que quando os meus pais iam viajar, a maior parte das coisas que eles me traziam, a mim ou ao meus irmãos, não haviam cá. Lembro-me de uns ténis azuis Le Coq Sportif que exibi na escola, pois ninguém tinha uns iguais. Lembro-me de um computador que trouxeram dos Estados Unidos que ensinava a ler e escrever inglês, falando connosco. Completamente inédito na altura. Neste portugalito com apenas dois canais de tv, com pouquíssimas lojas de marca, ainda demasiado marcado pela liberdade tardia e rodeado de analfabetismo.

Sinto que o meu país cresceu muito nestes últimos 30 anos. Tanto é verdade que para os meus filhos a box com 357 canais à escolha, a catrefada de shoppings com marcas de toda a forma e feito, são já um dado adquirido.  Hoje em dia qualquer produto chega a Portugal num piscar de olhos, e se não existir encomenda-se pela net e já está. Já não estamos anos à espera de um filme ou de uma série. 

Apesar de gostar de futebol desde que me lembro, nunca tive nem por sombras o orgulho de ver jogar a minha selecção como os meus filhos tiveram neste campeonato. Tirando a euforia de 2004 e da quase-vitória, não me lembro de em pequena ter sequer a esperança de ganhar fosse o que fosse. Ver o Carlos Lopes ganhar a medalha de ouro nos jogos Olímpicos Los Angeles, ou a Rosa Mota a ganhar a maratona em Seul, foram as vitória mais nobres que me lembro de ter assistido em nome de Portugal.

Hoje, e não é só pelo facto nos termos consagrado campeões da europa no passado dia 10, sente-se que apesar de sermos apenas 11 milhõezitos, somos gente de fibra, gente que acredita na superação, humildes e com os pés assentes na terra mas nem por isso com falta de ambição. Hoje sabemos que podemos ser tão bons ou melhores que os strangers em tudo. Damos cartas não só no desporto, como na ciência, no âmbito das empresas start-up, na informática. Até já temos portugueses no cinema americano. Quem será o primeiro português (a) a ganhar um óscar em Hollywood? Aceitam-se apostas!

Não é por acaso que a Nacional anda há séculos a dizer que o que é Nacional é bom!


sexta-feira, julho 15, 2016

Je ne suis pas Nice! E era isto que tinha para dizer sobre este assunto




Je ne suis pas Nice

Antes de sermos Nice, temos de ser Reyhanli, Haditha, Idlib, Mosul, Beshir, Jalula, Baquba, Tikrit, Homs, Bagdad, Aleppo, Raqqa, Samra, Ninewa, Diyala, Saladin
Texto de João André Costa • 15/07/2016 - 10:32

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"Há uns tempos comecei a compilar a seguinte lista de atentados perpetrados pelos Estado Islâmico:

- 11 de Maio de 2013, dois carros bomba explodem na cidade de Reyhanli, Turquia, causando 51 mortos e 140 feridos;
- 2 de Janeiro de 2014, um carro bomba explode em Beirute, causando 4 mortes e ferindo dezenas de pessoas;
- 23 de Fevereiro de 2014, um bombista suicida vitima 7 pessoas em Aleppo, Síria;
- 28 de Fevereiro de 2014, um bombista suicida vitima 7 pessoas em Haditha, Iraque;
- 15 de Março de 2014, o número total de vítimas do Estado Islâmico, por força da guerra e atentados, ascende a 336, às quais se juntam 1563 feridos;
- 20 de Março de 2014, um ataque levado a cabo por membros do Estado Islâmico provoca 2 mortes e 5 feridos;
- 16 de Abril de 2014, o Estado Islâmico assassina o Emir de Idlib, os seus irmãos, a mulher e os dois filhos;
- 1 de Maio de 2014, enquanto o mundo celebra o Dia do Trabalhador, o Estado Islâmico executa sete pessoas em público, algumas delas crucificadas;
- 7 de Junho de 2014, o Estado Islâmico faz reféns mais de 1300 alunos em Ramadi; - Uma bomba em Jalula provoca a morte a 18 elementos das forças curdas;
- 10 de Junho de 2014, o Estado Islâmico executa 600 prisioneiros em Mosul;
- 11 de Junho de 2014, o Estado Islâmico faz refém o Embaixador Turco juntamente com vários elementos da sua equipa;
- 12 de Junho de 2014, entre 1095 e 1700 soldados e 12 Imãs morrem às mãos das forças do Estado Islâmico entre Saladin e Mosul, Iraque;
- 13 de Junho de 2014, duas cidades na província de Diyala são capturadas pelo Estado Islâmico. Relatos falam da morte indiscriminada de soldados, polícias e civis; -
16 de Junho de 2014, o Estado Islâmico executa 28 voluntários perto de Samarra;
- 17 de Junho de 2014, 17 soldados iraquianos são mortos perto de Samarra;
- 18 de Junho de 2014, 20 civis são mortos na província de Saladin;
- 22 de Junho de 2014, o Estado Islâmico toma posse de 4 cidades na fronteira entre o Iraque e a Síria, dizimando um batalhão de soldados iraquianos e 21 líderes locais;
- 30 de Junho de 2014, 215 soldados iraquianos morrem numa tentativa de recaptura de Tikrit, caída às mãos do Estado Islâmico. De acordo com as Nações Unidas, durante o mês de Junho morreram 1531 civis e 886 soldados no Iraque, tendo sido feridas 524 pessoas;
- 7 de Julho de 2014, o Estado Islâmico rapta 11 civis da aldeia de Samra, Iraque;
- 8 de Julho de 2014, um candidato político e um juiz são raptados em Ninewa, Iraque;
- 9 de Julho de 2014, o Estado Islâmico rapta 60 soldados Iraquianos em Mosul;
- 11/12 de Julho de 2014, o Estado Islâmico executa 700 civis turcos em Beshir;
- 13 de Julho de 2014, os corpos de 12 homens executados pelo Estado Islâmico são descobertos em Baquba, Iraque;
- 16 de Julho de 2014, 42 soldados iraquianos são executados pelo Estado Islâmico a sul de Tikrit;
- 15 de Julho de 2014, nova tentativa de recaptura de Tikrit provoca a morte a 52 soldados iraquianos;
- 17 de Julho, os campos de gás de Homs, Síria, são capturados pelo Estado Islâmico. 270 soldados sírios são mortos;
- 19 de Julho de 2014, um bombista suicida em Bagdad provoca 33 mortos e 50 feridos;
- 22 de Julho de 2014, um Imã é assassinado pelo Estado Islâmico em Baquba, Iraque;
- 25 de Julho de 2014, o Estado Islâmico captura a 17a Divisão do Exército Sírio, decapitando vários soldados, cujas cabeças são expostas em Raqqa. Os corpos de 18 polícias iraquianos são descobertos a sul de Tikrit...

E parei por aqui, nauseado, como se ainda agora estivesse a meio da “Lista de Schindler“ e a menina de vermelho fosse a caminho da pira funerária.

Tantas mortes... e faltam-me as palavras para poder continuar, seja a ver o Holocausto, seja a ver o massacre mais o êxodo diário de milhões de pessoas cuja única culpa é a de viverem lá longe, no médio oriente, e não em Paris, ou Nice, cidades de tal modo perto de nós que nos é impossível não reconhecer os seus corpos mais as pessoas que um dia foram.

Não sei quem foram as (pelo menos) 84 pessoas cujas vidas pereceram ontem em Nice às mãos do Estado Islâmico. Mas enquanto não soubermos quem são todas as pessoas executadas, crucificadas, esquartejadas, violadas, raptadas, guilhotinadas, fuziladas, querem que continue, emparedadas, imoladas, apedrejadas, sufocadas, afogadas, eu sei lá, são tantos os modos e a as maneiras para nos matarem entre a Síria e o Iraque que de outro modo não nos é possível explicar o porquê da fuga de 14 milhões de pessoas mais a ignorância que todo o Ocidente lhes dedica, lá está, como se toda esta gente não fosse gente, não fossemos nós, não fosses tu e não fosse eu. Porque enquanto não soubermos todos os seus nomes vos garanto como se ontem tivemos Paris, hoje temos Nice, o qual não é senão o reflexo de um ódio que se permite, ainda hoje e desde 2013, andar à solta para que no fim tenhamos petróleo barato. Por isso não posso ser Nice. Hoje não. Porque antes de sermos Nice, temos de ser Reyhanli, Haditha, Idlib, Mosul, Beshir, Jalula, Baquba, Tikrit, Homs, Bagdad, Aleppo, Raqqa, Samra, Ninewa, Diyala, Saladin, entre tantos outros, entre tantas outras pessoas de cujas vidas nunca vamos tomar conhecimento, pelo menos até que um dia os meus amigos se lembrem de colorir os seus perfis no Facebook com as cores da bandeira da Síria ou do Iraque. Quando esse dia chegar, talvez eu acredite, talvez haja esperança. Até lá, continuaremos, hoje e sempre, a contar corpos."


E era isto que eu tinha para dizer, mas o João fê-lo melhor do que eu.

quarta-feira, julho 13, 2016

Quinze crianças tiram férias da Guerra

Desde que estou com as equipas de rua da Comunidade Vida e Paz, tenho assistido de perto às realidades dos sem-abrigo das ruas de Lisboa.

São realidades, no plural, pois cada um tem a sua história, o seu motivo para se encontrar a dormir na rua. A maior parte deles não gosta de falar nisso, e nós também não perguntamos o porquê, só nos interessa saber se querem uma oportunidade para sair dali, pois a Comunidade Vida e Paz pode ajudá-los nessa aventura.

São situações lamentáveis e que preferíamos que não existissem, mas foi esta proximidade que me permitiu perceber, mais do que nunca, que saber dar é um dom. SABER DAR não é para todos. DAR implica estar disponível, implica saber que o retorno está literalmente no bem que fazemos e na satisfação intrínseca que isso nos proporcina. DAR não implica receber algo em troca, até porque eles não têm nada para nos dar. Nada de bens materiais, entenda-se, pois eles dão-nos sorrisos, pedem-nos abraços, agradecem-nos o que estamos a fazer por eles e dizem-nos coisas como:
- tu és a minha flor,
- desejo que encontres um homem bom, tu mereces, pois fazes isto de coração.
 e isto, só isto, enche-nos a alma e a estima de uma forma indescritível.

Hoje li esta notícia no Expresso:
Quinze-criancas-tiram-ferias-da-guerra


A primeira coisa que me passou pela cabeça foi uma enorme vontade de participar neste projecto.
E depois veio-me o agradecimento ao Colégio São João de Brito e às famílias pela experiência incrível que estão a proporcionar a estes miúdos.
Um grande bem-haja a todos os que tornaram esta alegria possível.

Pode ser que um dia a minha família tenha a oportunidade e condições para o fazer.
Eu gostava, gostava muito!